No dia 11 deste mês, a Associação Médica Brasileira no Maranhão promoveu a conferência “Saúde Mental e o Exercício da Medicina”, no Auditório do Executivo Lake Center, reunindo médicos, estudantes e lideranças da entidade para uma reflexão profunda sobre os desafios contemporâneos da prática médica.
A palestra foi ministrada pelo Dr. Ruy Palhano e coordenada pela Dra. Sâmia Jamile, com a presença do presidente da entidade, Dr. Artur Serra Neto, e da diretora científica, Dra. Francisca Luzia Soares Macieira de Araújo. O encontro destacou a urgência de repensar o modo como a medicina compreende o ser humano e, ao mesmo tempo, de cuidar da saúde mental dos próprios profissionais.
Logo na abertura, Dr. Ruy Palhano propôs uma inquietação que, segundo ele, o acompanha há muitos anos no exercício da medicina: a herança de uma tradição ocidental que separa mente e corpo, espírito e matéria, psíquico e somático. Embora essa divisão tenha tido utilidade didática, afirmou, ela acabou produzindo um efeito colateral importante, ou seja, a fragmentação da compreensão do ser humano.
“O grande desafio contemporâneo não é abandonar as distinções conceituais, mas recolocá-las no seu devido lugar. Elas são instrumentos analíticos, não divisões ontológicas da realidade humana”, ressaltou. Para o conferencista, mente, corpo e dimensão espiritual constituem uma unidade dinâmica. Saúde e doença não pertencem a compartimentos isolados, mas expressam o modo como essa totalidade está funcionando em determinado momento da vida.
Ao longo da palestra, o médico destacou que emoções alteram o funcionamento orgânico e que conflitos psíquicos repercutem em sistemas como o cardiovascular e o imunológico. Do mesmo modo, doenças físicas podem modificar humor, cognição, esperança e sentido de vida.
Dados recentes sobre saúde mental de crianças e adolescentes
Segundo levantamento apresentado à Comissão Externa de Enfrentamento à Covid-19 da Câmara dos Deputados, uma em cada quatro crianças e adolescentes apresentou sinais clínicos de ansiedade e depressão durante a pandemia, com necessidade de intervenção especializada. No Brasil, entre os 69 milhões de pessoas com até 19 anos, há registro de cerca de 10,3 milhões de casos de transtornos mentais.
Em todo o mundo, uma em cada seis crianças e adolescentes é afetada por algum transtorno mental. A depressão figura entre as principais causas de incapacidade entre adolescentes, e o suicídio está entre as principais causas de morte na faixa etária de 15 a 19 anos em diversos países.
Além disso, 48,4% dos adultos com transtornos mentais tiveram início do quadro antes dos 18 anos, evidenciando a importância de intervenções precoces e de uma rede articulada entre escola, família e serviços de saúde.
Para o Dr. Ruy Palhano, essa realidade expõe não somente o sofrimento dos pacientes, mas também o impacto sobre os médicos. “Se ensinamos o futuro médico a enxergar apenas o órgão, ele tende a perder a percepção da pessoa. E isso atinge também o próprio profissional, que passa a exercer uma medicina tecnicamente correta, mas muitas vezes esvaziada de sentido humano”, alertou.
A conferência reforçou a necessidade de fortalecer o cuidado com quem cuida, ampliando espaços de escuta, diálogo e acolhimento dentro da formação e da prática médica. Ao reunir profissionais experientes e estudantes, o evento consolidou-se como um momento de reflexão coletiva sobre a responsabilidade ética, científica e humana da medicina.




